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| Dona Dina em seu quarto: as bonecas ocupam desde a cama até o lustre |
- Aposentada mantém coleção de bonecas que surpreende pela delicadeza
por Lívia Inácio
Quem passa pela movimentada rua Voluntários da Franca, bem no centro da cidade, não imagina que ali há um lugar especial cuja magia faz qualquer mulher se sentir menina outra vez. A princípio, a casa amarela em que mora a aposentada Maria Ricardina Braga, 83, a simpática dona Dina, parece ser uma casa comum, mas não é. A própria decoração da sala não nos deixa mentir: com várias estantes cheias de bonecas dos mais variados modelos, a dependência poderia ser o sonho de qualquer criança.
A razão desse grande acervo, que conta com aproximadamente 800 bonecas distribuídas por todos os cômodos da casa é uma paixão que dona Dina alimenta desde a infância pelo brinquedo. Por causa dessa fixação, há mais de 30 anos, ela começou a colecionar bonecas de vários tipos e tamanhos, desde chaveirinhos e imãs até peças de pano e de porcelana.
Dina lembra que esse seu encanto começou aos 2 anos de idade, quando ganhou a sua primeira, feita pela mãe. O problema foi que o brinquedo caiu da janela de sua casa e, como era de pano, foi estragado pelos porcos da fazenda em que a família vivia. Inconformada, Dina chorou, mas logo ganhou sua segunda, que era de papelão e bem enfeitada. A partir de então, tornou-se uma afeiçoada assumida por bonecas.
Carismática e sorridente, dona Dina atribui a graça do seu espírito jovial ao contato com a sua coleção. Até mesmo o seu quarto é decorado com bonequinhas: elas estão sobre a cama, enfeitam o criado-mudo, a penteadeira e o lustre. A propósito, tudo ali é muito delicado. Até mesmo a TV e o ventilador são bem pequenos para que combinem com o ambiente.
O que a colecionista mais valoriza em suas bonecas é o fato de cada uma ter seu significado. Para ela, nenhum item teria valor se não a remetesse a algo. “Não guardo o que tenho por vaidade ou coisa assim. Cada peça tem uma história e por isso são tão importantes”, explica.
Uma das que a aposentada mais gosta é a boneca de papelão que tem mais de 80 anos e é a mais antiga do acervo. “Ela é especial porque se parece muito com a que ganhei quando criança, na época em que chorava pela boneca de pano que havia estragado”, lembra.
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| Emílias, Barbies e Susis é o que não faltam na coleção |
Dona Dina também destaca que muitas são importadas. Algumas vieram do Japão, da Espanha, dos Estados Unidos, da Itália. E ainda há as que chegaram de várias partes do Brasil. “Todo amigo meu que viaja traz uma diferente para mim”, conta.
Viúva há 12 anos de Djalvo Braga, que foi gerente da Caixa Econômica, vereador e diretor do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, Dina tem 18 netos, 10 filhos e 6 bisnetos e conta que embora sua coleção sempre atraísse as crianças, ela fazia o possível para não deixar ninguém estragar nada. “Todos já se acostumaram com meu cuidado”, diz.
Ainda que seja apaixonada por bonecas, dona Dina é uma colecionadora sensata e conta que sonhava em ter uma que parecia um bebê de verdade, vendida em Poços de Caldas – MG. Entretanto deixou a vontade passar porque não teve coragem de pagar mais de R$ 1 mil pela peça. “Eu queimaria no mármore do inferno se comprasse uma boneca tão cara, sabendo que há tantas crianças que não têm nenhuma em casa”, brinca.
Solidariedade
Diferente do que alguns podem pensar, a solidariedade de dona Dina não se limita ao seu pensamento altruísta. Todos os anos, a senhora compra várias bonecas do Paraguai e roupinhas para elas em um hipermercado de Franca para depois distribuir entre crianças carentes. Além disso, em seus aniversários, ela já não pede mais para que os amigos lhe presenteiem com bonecas. Líder de um grupo que faz campanhas para ajudar gestantes que não têm como custear o enxoval de seus bebês, dona Dina pede fraldas, sapatinhos e roupinhas de crianças e os encaminha a quem precisa. Ao que parece, além do fascínio por brinquedos, a colecionadora também não perdeu aquela que é uma das características mais sublimes da infância: a generosidade.

